Facebook
Entrevista Paulo Bordhin – Centro Cultural do Alumínio

As esculturas em fios de alumínio do multiartista Paulo Bordhin são plenas de movimento; carregam a alma e o gestual do grande ator que é.  Seja para provocar ou simplesmente trazer encantamento, não há como se surpreender com sua obra.  Nessa breve entrevista, Paulo Bordhin conta um pouco sobre seu processo criativo e sua relação com o alumínio, material que como ele mesmo gosta de dizer, o escolheu para melhor expressar suas ideias nas artes plásticas.

1. Inspiração, intuição ou puro prazer de fazer, como você descreveria o momento do primeiro contato e criação com o fio de alumínio?

A primeira impressão que eu tive foi de desafio. Em 2006 minha querida amiga e mentora, a arquiteta e cenógrafa Márcia Benevento, me convidou para criar alguns manequins com o fio de alumínio que vestiriam figurinos para uma exposição que o SESC Pompéia estava organizando para homenagear o Flávio Império, grande arquiteto e cenógrafo, já falecido. Ela me conhecia como ator de teatro e apostou que eu poderia transmitir para os manequins todo o gestual dos atores, bailarinos e cantores que vestiriam aqueles figurinos.

Temos uma máxima expressão ao no teatro que diz: – “o palco é um abismo, crie asas” . Me valí disso para encarar aqueles rolos enormes de alumínio que estavam na minha frente para dar formas humanas com certa expressividade, contando com a orientação da Márcia. Assim surgiram minhas primeiras peças.

2. A arte não se limita de definições, mas pode ser compreensão, admiração ou pura fruição. O que você deseja provocar nas pessoas?

Uma obra pode ter sido feita com um propósito, mas também pode ser resultado de pura experimentação. Isso me agrada mais, esse resultado de um experimento, sem que haja algo preconcebido, porque eu também preciso me surpreender com o resultado para poder surpreender o outro. Essa inusitado  é que me move nesse vasto mundo da criação.

Quando estou criando, o resultado pode ter algum propósito, como por exemplo, ser provocativo. Instigar nas pessoas uma reflexão, questionamento, consciência, mas também a arte pode ser só encantamento. Não me censuro pra nada.

Uma obra pode ter sido feita com um propósito, mas também pode ser resultado de pura experimentação.

3. Seus trabalhos contam histórias? Refletem momentos? Quanto do ator se expressa no artista plástico?

Como artista plástico, eu trabalho com um material que pode tomar qualquer forma, então eu acredito que meu lado ator empresta ao artista a sua coragem, a sua ousadia na hora de criar. Esse start de entrar em cena e criar um personagem com personalidade diferente da sua e que não havia sido previamente preconcebido. E como resultado, minhas obras também trazem um movimento, um gestual de ator mesmo que não sejam figuras humanas. Assim como um personagem deve ter alma para ser verossímil, eu acredito que minhas obras também passam essa sensação para as pessoas.

O alumínio acaba se reciclando dentro da minha criação e, muitas vezes de forma bastante surpreendente.

4. O alumínio faz parte de sua história e fará parte do seu legado. Mas para o presente, quais são os projetos do ator e do artista plástico

Eu costumo dizer que não fui eu quem escolhi, mas sim o alumínio que me escolheu e, como artista, a gente está junto há mais de dez anos. Eu já me questionei se deveria voltar a usar outros materiais, mas o alumínio acaba se reciclando dentro da minha criação e, muitas vezes de forma bastante surpreendente. Ora as obras mudam de escala, ora compõem cenografias de espetáculos, também têm nas joias que passei a criar anos mais tarde. O alumínio é bastante versátil, permite diferentes acabamentos que posso chegar com ele. E tem também a questão da portabilidade, em função da sua leveza, pois sou meio nômade e gosto de levar sempre o material comigo. Eu acabo utilizando momentos preciosos para criação.

Sobre projetos, estou desenvolvendo obras novasde grande porte para uma nova exposição itinerante. No  segmento de joias, em que estou com uma coleção nova e que agora estão representadas na Europa, através de lojas de design na Alemanha.  Como ator, estou com a peça Roque Santeiro, no qual além da cenografia também faço o prefeito de Asa Branca, Florindo Abelha; também estou viajando com o espetáculo As Duas Mortes de Roger Casement, com três apresentações programadas em fevereiro na Irlanda; e estou gravando para a TV Globo a minissérie Cine Holliúdy , inspirada no filme do mesmo nome.

5. Por fim, gostaria que você relembrasse como se deu essa aproximação com a Indústria do alumínio?

Em 2007 eu já havia criado algumas esculturas e que deixava à mostra em meu site. Certo dia eu estava no camarim – não custa lembrar que toda essa exposição, a Entreato, foi concebida em camarins de teatro –, quando recebi um convite da ABAL para participar da exposição Presença do Alumínio, que seria montada no MuBE (Museu Brasileiro de Esculturas). Esse convite foi como um apadrinhamento da ABAL ao meu trabalho com alumínio, pois até então eu nunca havia feito uma exposição. E a partir daquele momento, a própria arte foi me levando e novos trabalhos e exposições. Depois, em 2011, o SESI propôs tornar a Entreato uma exposição itinerante que, desde então, já esteve em mais de 50 cidades no Brasil, além de Nova York.